Seguro tem papel estratégico na adaptação climática

Correlação entre seguro, natureza e clima também posiciona o mercado segurador como protagonista no contexto da mudança climática

Grande parte dos profissionais do mercado de seguros brasileiro reunidos em Londres para as ações da London Climate Action Week está revivendo o período em que estiveram na COP30 realizada em Belém (PA), no Brasil. A começar pela semelhança das temperaturas, em torno dos 34 graus.

Com esse pano de fundo, teve início o debate sobre seguros, clima e natureza, na sede da Marsh, como parte integrante da delegação brasileira que está em Londres.

“O calor lá fora mostra que realmente as mudanças climáticas estão acontecendo. Percebemos com muita clareza no setor de seguros os efeitos das mudanças climáticas, seja no seguro agrícola, no seguro de propriedades, no saúde com o aumento de pagamento de indenizações ou do número de eventos”, observa Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).

O fato de a Europa estar enfrentando ondas de calor cada vez mais fortes tem impacto para todo o ecossistema e meio ambiente.

Oliveira chamou a atenção para o fato de que, muitas vezes, a discussão fica concentrada na ideia de que o mercado precisa criar soluções novas, mas é necessário olhar para a implementação do que já existe atualmente.  “A indústria de seguros tem um papel importante em todas essas questões. As duas funções principais são implementar as soluções existentes e criar novas soluções”.

“Os temas da transição, da resiliência e da natureza estão, de fato, no centro do que fazemos. Trabalhamos com nossos clientes ajudando-os a navegar por todos os tipos de riscos, e essas questões surgem repetidamente. Estamos empenhados em encontrar soluções que, muitas vezes, exigem colaboração”, destaca Swenja Surminski, diretora para o Clima e Sustentabilidade da Marsh.

Seguro na adaptação

“Na rua, qual seria a redução média de temperatura e qual seria a temperatura se não tivéssemos árvores? Então, se não tivéssemos árvores, a temperatura média em um dia como hoje, cuja previsão era de 39,7°C. Sem árvores nas ruas de Paris, alguém sabe qual seria o impacto, segundo as simulações virtuais, se houvesse mais árvores? Segundo o estudo, menos 10 graus”, exemplificou Ahad Khalid, Global Product Leader, Power & Onshore Renewables da Allianz.

Segundo ele, isso não é ciência espacial. É algo que todos podem fazer, inclusive o setor de seguros. “Todos podem contribuir. Se passarmos para os painéis solares, por exemplo. Os painéis solares enfrentam, na verdade, dois grandes problemas: granizo e incêndios florestais. No caso do granizo, infelizmente, não há muito como se proteger completamente. É possível utilizar redes de proteção e aumentar a espessura dos painéis, mas ainda assim haverá perdas. Já os incêndios florestais podem ser mitigados. Com um manejo adequado da vegetação, é possível reduzir significativamente esse risco”.

Painel iCS_sede da Marsh em Londres

Da mesma forma, podemos falar dos manguezais. Não quero roubar o protagonismo da minha colega, mas os manguezais são uma forma extremamente natural de prevenir ou limitar os danos causados por inundações. Isso é algo que observamos de maneira bastante significativa no Brasil.

“É bastante intuitivo perceber que a natureza é, como foi mencionado aqui, a engenheira mais barata que podemos contratar. O exemplo das árvores reduzindo a temperatura é intuitivo. O papel dos manguezais na redução de inundações e dos impactos de ciclones também é intuitivo. Os manguezais funcionam como barreiras naturais”, acrescentou Saurabh Sharma, responsável pela área de Natureza e Seguros Inclusivos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Conforme Sharma, no Reino Unido, há muito trabalho sendo realizado com áreas úmidas (wetlands). “Essas áreas absorvem a água superficial e, por isso, ajudam a reduzir o risco de enchentes. Portanto, os benefícios da natureza são evidentes e respaldados pela ciência”.

As evidências científicas já existem há bastante tempo, mas agora estamos começando a enxergar seus impactos diretos também na indústria de seguros.

“Um dos estudos mais fascinantes que li este ano foi publicado recentemente e analisou o impacto da degradação das áreas úmidas sobre os sinistros residenciais nos Estados Unidos. O estudo concluiu que, ao longo dos últimos 40 anos, a degradação dessas áreas resultou em um aumento de US$ 10 bilhões nas indenizações de seguros residenciais”.

Seguro no PNUD

Segundo Sharma, a organização monitora e acompanha o progresso do desenvolvimento sustentável em cerca de 170 países.

“Observamos que vivemos em um mundo de crises. Todos conhecemos os desafios das mudanças climáticas, da perda da natureza e das tensões geopolíticas. Todas essas crises representam ameaças significativas ao desenvolvimento sustentável”.

Ele destacou que o PNUD enxerga o seguro como uma das ferramentas para enfrentar esse cenário. Por isso, o PNUD possui uma equipe global dedicada a seguros e financiamento. “Atualmente, trabalhamos em 39 países, assessorando governos, reguladores e também o mercado segurador local sobre como os seguros podem contribuir para objetivos de desenvolvimento sustentável, especialmente em agricultura, financiamento de riscos de desastres, resiliência de pequenas e médias empresas e, por fim, natureza”.

Sharma também integra o grupo de trabalho sobre natureza dos Princípios para Seguros Sustentáveis da ONU, que reúne seguradoras globais para discutir como incorporar a natureza às suas estratégias. “Ainda são poucas as seguradoras que atuam de forma realmente ativa nesse tema”, diz ele ao justificar que isso ocorre porque há dois desafios: a quantificação dos benefícios proporcionados pela natureza, especialmente aqueles relacionados à redução de riscos, e a definição de quem deve assumir a responsabilidade.

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